quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Laço ou nó, o que segura mais?


Em 1886 Robert Louis Stevenson, publica o livro "Dr. Jekyll and Mr. Hyde", onde conta a história do Dr. Henry Jekyll que ao beber de uma fórmula por ele desenvolvida transformasse em Mr. Hyde.
Um gentil, intelectual, casto, outro violento, rude e sensual, dois seres totalmente opostos, mas que na verdade são a mesma pessoa, pois a obra se trata de uma metáfora sobre o lado obscuro da alma humana, os monstros que carregamos trancados nos porões do inconsciente e que se manifestam quando menos esperamos e as vezes de forma tão sutil que só percebemos sua ação ao nos depararmos com a dor que provocamos no outro.
Ao se ler a obra, ou assistir uma das várias adaptações feitas para o cinema e até mesmo para o desenho animado - é um clássico o Pernalonga tornando-se um monstro - uma da questões que pode ser levantada é a de que até ponto trazemos dentro de nós um Mister Hyde que aguarda a mínima oportunidade para manifestar-se.
E se realmente carregamos um monstro pronto a atacar o outro, o que o mantém preso, ou melhor o que o faz se manifestar?
O que nos transforma em monstros na vida do outro que se entregou, confiou em nós e derrepente é visto e tratado como presa a ser atacada para saciar uma fome primitiva que não sabíamos existir no nosso íntimo até que se manifestasse?
Estas questões são um rico material de reflexão para todos que tendo convivido com as feras alheias, muitas vezes como espectadores, algumas como vítimas se sentiram de tal forma horrorizados que não desejam permitir esse afloramento em si mesmos.
Como manter nosso lado "monstro" acorrentando e o que o faz ganhar força a ponto de se soltar fazendo vítimas ao seu redor?
Responder essas perguntas é difícil na medida em que vários motivos podem ser encontrados para que nos tornemos um monstro, mesmo que por breves períodos.
Alguns se metamorfoseiam por egoísmo, outros por medo de serem magoados, outros ainda por covardia, por medo de magoar. É interessante esse paradoxo de magoarmos profundamente porque temos medo de magoar naquele momento, como ser escondêssemos a existência de um tumor a uma pessoa que amamos, por medo dela ficar desesperada, e com isso adiamos um tratamento que a cada dia se tornará mais doloroso, pois as raízes do mal vão cada vez ficando mais fundas.
Não ser um monstro na vida do outro é ter a coragem de fazer escolhas que tornem desde o primeiro olhar, do primeiro oi a relação transparente, ter a coragem de não usar máscaras, de não esconder-se, de dizer, mesmo que isso custe a convivência - que é tão prazerosa - aquilo que vai na alma, enfim é não permitir que se estabeleçam nós entre eu e o outro, pois nós fazem sofrer.
Optemos por laços.
Laços que são frágeis e belos e ai encontram sua eternidade, pois já que podem ser desmanchados a um simples puxar de fita são cuidados, arrumados, carinhosamente mantidos, pois não incomodam, ao contrario dos nós.
Nós foram feitos para serem desmanchados, mesmo que cortando, laços fazem parte do presente e por isso duram na lembrança afetiva tanto quanto os diamantes que envolviam.
Dr° Jekyill ao transformar-se em Mister Hyde desaprendeu a fazer laços e aprimorou-se na arte dos nós, por isso se não queremos nos "monstrificar" - me perdoem o neologismo - passemos a partir de agora a somente usar laços e tenhamos a coragem de revisitar todas as nossas relações e trocarmos os nós que demos, mesmo que isso doa, separe e magoe, pois só assim manteremos a nossa humanidade.

Um comentário:

  1. Realmente ser laço é muito mais fácil, mas ainda acredito que vale a pena mostrar os nós e tentar desatá-los, para que o "monstro" possa ao menos viver hibernando...

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