terça-feira, 19 de outubro de 2021

Para fazer ouro é preciso ter ouro

 O título dessa postagem é um aforismo da alquimia que nos convida a refletir sobre a nossa capacidade de ação sobre a realidade que nos cerca.

 Nesse planeta azul no qual vivemos as redes sociais se tornaram espaços privilegiados para serem apresentadas as várias faces que a dor, a violência, o medo, a crueldade, enfim, o lado escuro da realidade. 

Raramente essas postagens são acompanhadas de sugestões concretas para sua transformação e os comentários que se seguem a eles assumem um tom de denúncia vazio ou o apelo por  uma intervenção divina que não se dará caso não aparece um ser corpóreo disposto a ser o canal pelo qual a força da transformação fluirá.

A carência de agentes transformadores da sociedade se deve em enorme parcela ao simples  fato de as pessoas não saberem o que e como fazerem. Ideias surgem, são lançadas ao vento e raramente se concretizam pela simples razão do desconhecimento de como começar a caminhada.

O ouro que precisamos ter para fazer mais ouro é o conhecimento sobre o tema que nos incomoda. os videos de alguns minutos, as postagens de falas contundentes são apenas a ponta do iceberg, para conhecê-lo a fundo é necessário mergulhar em águas mais profundas que normalmente são geladas e escuras e ameaçam sempre nos aforar com seu peso. 

Saber que o problema existe, estudar suas características, conhecer seus escaninhos é juntar o ouro necessário para construir junto com quem passa por ele caminhos de saída. É sem dúvida um projeto de longo curso que em tempos de imediatismo parece sedutor e coerente para poucos, mas é sem dúvida a única forma possível de pararmos de assistir e pensar sobre a realidade e começarmos a transformá-la

De volta ao vento

Onze anos depois esbarrei com esse espaço que não lembrava mais que existia. 
Durante esse tempo a maioria das reflexões que fiz foram compartilhadas em conversas aqui e ali, ou permaneceram guardadas no aconchego da memória, esperando o dia em que embarcariam com destino à caixinha do esquecimento chamada inconsciente. 
Hoje, não sei por qual razão, esbarrei novamente com esse espaço e resolvi não deixar esse reencontro passar em branco.
As ideias, que são muitas, a partir de agora voltarão a ser obrigadas a sair do aconchego do não dito e enfrentam o desafio de se tornarem escrita e serem lançadas ao vento da internet.
Sinceramente não espero que alguém as leiam, mas se algum incauto cair nessa página devido ao deus Algorítmico fica aqui expresso o desejo de que o incômodo com o aqui postado se estabeleça em sua mente e o leve a sair de sua zona de conforto e se lançar à vida, pois ela é uma só e vale a pena ser experimentada.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Aleluia, sempre aleluia


Estava escutando uma música, Hallelujah, (http://www.youtube.com/watch?v=4kVCnLsGzK8&feature=player_embedded#at=64) e lá pelo meio ouço que "o amor não é uma marcha da vitória, mas uma sofrida aleluia". Creio que estes versos mal traduzidos resumem a essência desse sentimento que nos aproxima de Deus, pois na capacidade de amar a todos e, de uma forma única, uma pessoa é que transcendemos a nossa condição de meros caminhantes pelo mundo, para nos tornarmos verdadeiramente pessoas.
Mas você pode estar pensando sobre como saber o que é verdadeiramente amar, ou quando estamos iludidos, não tenho uma resposta, mas te digo que existem indícios muitos claros, como os versos apontam, já o amar se manifesta no silêncio, no estar lado a lado sem dizer nada, apenas segurando a mão do outro, no chorar copiosa, ou calmamente diante da dor, ou do por do sol, é ver pela milésima vez o mesmo filme, andar o mesmo caminho, é viver os momentos novos e também a rotina e em todas essas situações dar graças, dizer aleluia, porque se está naquele lugar, mas mais do que isso, com aquela pessoa que te aquece o coração, acalma a alma e descansa o corpo.
Claro que em alguns momentos as brigas acontecem e ai as caras se fecham, a raiva chega à porta, entra, senta na cama, deita entre os dois, mas não fica muito, pois não suporta o desejo que cada um tem do abraço, do beijo, do carinho que são o reencontro e a certeza da felicidade que tem endereço, CPF e identidade e está ali no toque do outro esperando por você.
É, tenho certeza de que fomos feitos para amar, e se o amor é essa sofrida aleluia que dobremos nossos joelhos e a digamos, silenciosa, calma, ou escandalosamente Aleluiamas , mas que não passemos pela vida sem o fazer, pois isso significaria que apenas passamos e não vivemos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Magia

Dizem os cépticos, práticos e racionais que a magia não existe. Que tudo aquilo que reportamos como referente ao campo do maravilhoso é filho da nossa ignorância em relação aos mecanismos que regem a natureza. O arco-íris não leva a um pote de ouro, o guarda-roupa não é um portal para Nárnia, duendes e fadas, elementais, tudo besteira, ilusão de usuários de alucinógenos ou delirantes dignos das alas psiquiátricas mais seguras que possamos encontrar. São Jorge não mora na lua, bruxas, nem pensar. E assim vão desconstruindo um mundo simbólico que milhares de gerações foram descobrindo ao longo dos séculos e que agora diante do microscópio à lazer, ou do telescópio espacial simplesmente deixa de existir. Pobres daqueles que se permitem levar por essas afirmações e banem a magia e a fantasia de suas vidas. Coitados dos que, ao seis anos, já não acreditam e Papai Noel, pois esses aos quinze desacreditarão do amor, aos vinte e cinco se tornarão cínicos, aos trinta e cinco amargos e aos quarenta passarão a lutar com cremes e ginásticas contra o tempo, temendo morrer. Por isso convido você a insanidade da crença naquilo que não pode ser visto, pois no factual qualquer ser do reino animal acredita, mas no lúdico, fantasioso, maravilhoso, só o ser humano crê.

Não perca seu tempo tentando achar uma explicação lógica para aquela pequena sombra que você viu brincando entre as flores no jardim, era uma fadinha e ponto.

Independente de sua idade faça seus pedidos no Natal e mande-os para o Pólo Norte.

Mas não creia apenas nos seres mágicos, acredite também nos valores tão desgastados pela mídia e pelo capitalismo.

Acredite na ética, na honestidade, no poder transformador do amor, mas acima de tudo acredite nas pessoas, na sua capacidade de se tornarem melhores com a ajuda de alguém – quem sabe você? – que nunca perdeu a crença na magia da vida.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Carta a um amigo


Amigo,
Hoje as 5:56 da manhã me pequei perguntando porque as pessoas não escrevem mais cartas.
Há menos de cem anos atrás o carteiro carregava em suas mochilas uma quantidade enorme de segredos trocados entre namorados, ou pretendentes que mesmo muitas vezes estando próximos desejavam derramar-se nas letras cuidadosamente desenhadas e ali falar"de todo o amor que há no meu ser por sua pessoa" e ao lado desse envelope embebido no perfume da amada, para além de tocar no coração, tocar no corpo. Cartas para serem lidas, abraçadas e cheiradas.
Também levava noticias tristes que seriam lidas e relidas num misto de tristeza, desencanto, desespero e angústia, como se ler várias vezes fosse mudar a ordenação das palavras e tornar a realidade diferente.
Cartas breves de congratulações, de convites para passeios, festas, reuniões políticas.
Cartas sérias que tramavam assassinatos, revoluções.
Cartas filosóficas sobre Deus, a vida e seu sentido.
Cartas e mais cartas onde podia se ler a alma não só do remetente, mas de toda a sociedade de uma época.
Hoje poucas são as cartas que "vencendo o sol, a chuva, a neve e as tempestades" o carteiro carrega. O peso que leva é composto por contas e propagadas. Os mais novos na profissão correm o risco de nunca terem passado a mãos tremulas umas "mal traçadas linhas" que eram ansiosamente esperadas.
Os práticos me dirão que isso aconteceu porque o e-mail, o telefone, o celular aproximaram as pessoas e são mais fáceis, nessa vida corrida na qual não temos tempo para sentar e escrever, mas na verdade, talvez o que tenhamos é medo de nos expor, para nós e para o outro, escrever, pensar no que escrevemos, nos vermos em cada palavra, letra.
Escrever é desnudar-se e nem sempre teremos um corpo perfeito a nossa frente, pois as rugas, as marcas, as cicatrizes estão ali olhando, conversando, rindo de nós, chorando ao nosso lado e isso dá medo, muito medo.
Mas talvez o grande problema não seja a falta de tempo, ou o medo, mas apenas a falta de alguém para escrevermos. Alguém que esteja disposto a esperar a hora do carteiro passar com uma enorme ansiedade, para rasgar cuidadosamente o envelope que foi entregue e percorrendo as linhas e as entrelinhas, encontrar-se conosco naquele momento em descobre o que se passa conosco.
Você escreve cartas? Não! Pense bem na razão disso: falta de tempo, de coragem, do que dizer, ou de destinatário?
Responda.
Descubra o endereço real do amigo que você só tem o endereço eletrônico e escreva-lhe, falando de você, da vida ou de nada, apenas falando.

quinta-feira, 19 de março de 2009


Algumas palavras são profundamente assustadoras quando as pronunciamos, sejam porque nos soem estranhas, tenham um significado que não conhecemos, ou reflitam nosso comportamento em momentos cruciais de nossa vida.
A palavra paradoxal pode ser enquadrada nesses três aspectos, mas principalmente no que se refere a última colocação.
Isso mesmo, se você olhar para sua vida a verá permeada de paradoxos: desejo de emagrecer e continuar comendo massas, apregoar-se independência de pensamento e não ter coragem para defender seus pontos de vista, querer ser feliz insistindo em escolhas que sabe que não te levarão a nenhum lugar com elas, como se estivesse procurando abrir uma estrada em uma montanha de pedra maciça.
Esses são apenas alguns exemplos genéricos das grandes enrascadas que alguém pode se meter na vida, pois no fim isso que é um paradoxo: uma grande, enorme enrascada, na qual você faz coisas que sabe que vão te machucar, despedaçar, mas mesmo assim tenta, tenta e faz.
Mas existe uma outra possibilidade do paradoxo se materializar na sua vida, aquela na qual você não está entrando em uma enrascada, mas fazendo uma opção.
Prometeu ao trazer o fogo para os mortais sabia que seria severamente punido pelos deuses, que o seu sofrimento seria estendido pela eternidade, mas mesmo assim ele o faz. Sacrifica-se para que a humanidade deixe o tempo do medo, das trevas e mergulhe na era da transformação, do controle da natureza, enfim da humanização.
Sofrer pelo outro é aos olhos do observador objetivo um grande paradoxo, doar sem receber , nem esperar nada em troca é um paradoxo, compartilhar sua luz, sabendo que isso fará com que de alguma forma você sofrerá é um grande paradoxo.
Mas se você pensar bem, se o ser humano tornar-se lógico, coerente, se ele abandonar essa característica que é única no universo ele abre mão de sua humanidade.
Deus é coerente.
Os anjos e potestades são coerentes.
A natureza é coerente.
Só o homem pode se dar o luxo de fazer escolhas que muitas vezes vão contra seus instintos, seus interesses, sua conveniência.
É claro que muitas vezes, na verdade na maioria delas, o que o move é o egoísmo, ou a burrice, mas há momentos nos quais há uma epifania que lhe mostra o que deve ser feito e quando ele tem a coragem de fazer o que é certo, por menor que seja seu gesto, o universo está se recriando, pois nesse momento ele vive a plenitude da sua humanidade.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Das impossibilidades


Muito além de ser um livro religioso a Bíblia é uma obra que propicia a quem a lê uma compreensão profunda sobre a alma humana no que se refere a busca da felicidade, pois essa é a essência de toda a trajetória descrita do Gênesis ao Apocalipse: como alcançar a terra prometida, como recuperar o paraíso perdido, enfim como ser feliz.
Em suas carta aos Romanos, capítulo 7, versículo 19 afirma em um desabafo aos seus confrades que:

"... não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço."

E isso o angústia, o desespera, o leva a estar em constante luta contra si mesmo, para conseguir superar suas limitações.
Esse versículo fala de superação de limitações que só é possível a partir do reconhecimento da sua existência em nossa vida, reconhecer-se fraco, partido, impotente, para a partir dai realizar uma transformação em nossa história.
No âmbito religioso essa transformação será feita pela ação divina que intercederá e nos fará dar o salto de qualidade que tanto almejamos para atingir o objetivo da felicidade, fora dessa realidade transcendental resta ao indivíduo ir pouco a pouco reconstruindo-se, redirecionando suas forças, seu foco e assim paulatinamente mudando.
Seu grande e único aliado nessa metamorfose é o tempo que com sua lenta e constante passagem vai mudando as paisagens ao seu redor até fazer com que outro cenário se descortine ao olhar surpreendido de quem por ali passar.
Diante dessa realidade fica na boca um traço amargo, um desejo de acelerar as coisas, de que agora se realize algo que só amanhã poderá acontecer, não porque não queiramos fazer, mas sim por não ser possível realizar nesse momento, por estar além das nossas forças.
Para quem está de fora da questão parece apenas a manifestação de um traço masoquista do indivíduo, um desejo de permanecer em um beco sem saída, em uma sala fechada, diante de uma janela que dá para o paredão de concreto que fala da não praça, do não céu azul, da não lua cheia, do não amanhecer, do não..., da não vida, mas se trata apenas de uma etapa da caminhada de descoberta da felicidade.
Entendamos que não fazemos o que queremos, mas apenas o que podemos e se percebemos isso em nós identifiquemos essa mesma característica no outro, tenhamos a sensibilidade de reconhecer os seus limites, as suas impossibilidades e permitamos que ele as viva, que ele tateie na sua escuridão, quando seria tão fácil nos pedir um fósforo, que caia quando bastaria escorar-se em nós, que viva a solidão quando bastaria um telefonema para estarmos ao seu lado.
Saiba que ele tem consciência de que essas possibilidades existem, mas ele vive o seu limite, a sua impossibilidade.
Momentânea? Só o tempo dirá.
Definitiva? Ninguém sabe.
A nós que nos dispomos a auxiliar só resta aguardar que o tempo passe e a faça estar não da forma que desejaríamos, mas daquela que está dentro da sua possibilidade a fará feliz