
Amigo,
Hoje as 5:56 da manhã me pequei perguntando porque as pessoas não escrevem mais cartas.
Há menos de cem anos atrás o carteiro carregava em suas mochilas uma quantidade enorme de segredos trocados entre namorados, ou pretendentes que mesmo muitas vezes estando próximos desejavam derramar-se nas letras cuidadosamente desenhadas e ali falar"de todo o amor que há no meu ser por sua pessoa" e ao lado desse envelope embebido no perfume da amada, para além de tocar no coração, tocar no corpo. Cartas para serem lidas, abraçadas e cheiradas.
Também levava noticias tristes que seriam lidas e relidas num misto de tristeza, desencanto, desespero e angústia, como se ler várias vezes fosse mudar a ordenação das palavras e tornar a realidade diferente.
Cartas breves de congratulações, de convites para passeios, festas, reuniões políticas.
Cartas sérias que tramavam assassinatos, revoluções.
Cartas filosóficas sobre Deus, a vida e seu sentido.
Cartas e mais cartas onde podia se ler a alma não só do remetente, mas de toda a sociedade de uma época.
Hoje poucas são as cartas que "vencendo o sol, a chuva, a neve e as tempestades" o carteiro carrega. O peso que leva é composto por contas e propagadas. Os mais novos na profissão correm o risco de nunca terem passado a mãos tremulas umas "mal traçadas linhas" que eram ansiosamente esperadas.
Os práticos me dirão que isso aconteceu porque o e-mail, o telefone, o celular aproximaram as pessoas e são mais fáceis, nessa vida corrida na qual não temos tempo para sentar e escrever, mas na verdade, talvez o que tenhamos é medo de nos expor, para nós e para o outro, escrever, pensar no que escrevemos, nos vermos em cada palavra, letra.
Escrever é desnudar-se e nem sempre teremos um corpo perfeito a nossa frente, pois as rugas, as marcas, as cicatrizes estão ali olhando, conversando, rindo de nós, chorando ao nosso lado e isso dá medo, muito medo.
Mas talvez o grande problema não seja a falta de tempo, ou o medo, mas apenas a falta de alguém para escrevermos. Alguém que esteja disposto a esperar a hora do carteiro passar com uma enorme ansiedade, para rasgar cuidadosamente o envelope que foi entregue e percorrendo as linhas e as entrelinhas, encontrar-se conosco naquele momento em descobre o que se passa conosco.
Você escreve cartas? Não! Pense bem na razão disso: falta de tempo, de coragem, do que dizer, ou de destinatário?
Responda.
Descubra o endereço real do amigo que você só tem o endereço eletrônico e escreva-lhe, falando de você, da vida ou de nada, apenas falando.
QUAL É MESMO O SEU ENDEREÇO?
ResponderExcluir